São
Francisco: o simbólico e o diabólico
Roberto
Malvezzi (Gogó)
-
4 de Outubro, dia de São Francisco e aniversário
de D. Luís Cáppio -
O
que faz do rio São Francisco um símbolo nacional?
Não são tantos os rios brasileiros degradados? Por
que não se fala do Tietê, do Capiberibe, do Beberibe,
do Paraíba do Sul ou do Salgado no Ceará? Talvez
seja o nome. Talvez porque nasça no sul e corra para o
Norte. Talvez porque seja o grande rio do semi-árido. Talvez
porque esteja na raiz da história brasileira. Talvez por
tudo isso junto. O São Francisco é também
o símbolo da degradação de todos os nossos
rios.
O
São Francisco é um símbolo, no melhor da
etimologia, isto é, aquele que une. Todos se sentem próximos
do Velho Chico. Sua população ribeirinha, então,
desenvolveu para com seu rio uma cultura amorosa, de carinho,
de paixão. O jeito de falar, o jeito de olhar, o banho
em suas águas, tudo é místico, tudo é
atravessado pela luz do mistério. "Velho Chico, vens
de Minas, onde a sombra do mistério se escondeu",
dizia Caetano em "Ciúme".
Porém,
por inabilidade política absurda do governo, o São
Francisco passou de "simbólico" a "diabólico",
isto é, aquele que divide. Isto mesmo, diabo é aquele
que divide. Não há qualquer racionalidade em justificar
a Transposição. Esse governo tinha, como ninguém
antes teve, todos os elementos para unir a "nação
nordestina" em torno de um projeto de desenvolvimento sustentável
para todo o semi-árido. Preferiu o caminho da divisão.
Por ironia da história, um presidente nordestino dividiu
a nordestinidade.
Agora
um bispo, há trinta anos nas beiradas do São Francisco,
toma uma atitude radical e expõe sua vida "contra
a transposição e em favor de um projeto para todos
os nordestinos, próximos e distantes do rio". O que
faltou para esse governo ter essa leitura da realidade?
Dia
4 de Outubro é dia de São Francisco, do rio São
Francisco e aniversário de nascimento de D. Luís.
O bispo, São Francisco, o rio São Francisco pedem
paz. Paz para o rio e para seu povo. Um pouco de sossego. Chance
para recuperar alento, vida e continuar sendo um símbolo
de todos os brasileiros, não a nossa divisão. Ainda
está em tempo.