RAZÕES TÉCNICAS
CONTRA A TRANSPOSIÇÃO DO SÃO FRANCISCO
Entenda
a atitude do Frei Luiz. Conheça as razões técnicas
contra a transposição e a favor de alternativas viáveis.
A
água vai se concentrar nas mãos de quem menos precisa.
- Da
forma como o projeto de transposição foi colocado,
ele atenderá diretamente a apenas 5% da superfície
do semi-árido. Nenhuma das barragens da região do
Seridó, por exemplo, onde o quadro das secas é mais
acentuado no Rio Grande do Norte, receberá as águas
da transposição.
-
O problema do semi-árido nordestino não é
a falta de água nos Estados envolvidos no projeto e sim
a má distribuição, que não deixa a
água chegar a quem mais precisa. A transposição
não resolve isso. Com ela, a água será levada,
basicamente, para reservatórios que atendem às áreas
urbanas ou às grandes produções irrigadas,
e não até as cidades mais remotas, no sertão.
Um
volume exorbitante de recursos escoando dos cofres públicos.
A
Agência Nacional de Águas (ANA) concedeu o direito
de outorga por 20 anos ao Ministério da Integração
Nacional para executar o projeto de transposição,
que tem o custo estimado pelo Governo Federal de R$ 4,5 bilhões.
Porém, é realmente possível que esse custo
chegue aos R$ 20 bilhões.
Além
disso, a operação do sistema de transposição
terá um custo anual de cerca de R$
80 a R$ 100 milhões por ano, divididos entre os quatro Estados
beneficiários do projeto: Ceará, Rio Grande do Norte,
Paraíba e Pernambuco. Esse volume enorme de recursos vai
comprometer grande parte dos investimentos dos próximos governos,
sem melhorar, de fato, o quadro de seca na região.
E
quem vai pagar a conta?
-
O projeto vai elevar o preço das tarifas de água
e luz para a população, em função
dos
altos custos de operação e manutenção
do sistema. Hoje, no Nordeste, a água bruta não
é cobrada e as famílias da região pagam apenas
pelo bombeamento da fonte de suprimento até a área
agrícola. Com a transposição, o custo da
água será, no mínimo, 5 a 6 vezes maior do
que os valores atualmente praticados na região.
-
No Rio Jaguaribe, no Ceará, existe um grande número
de produtores vazanteiros, que abastecem as feiras das regiões
mais humildes, aproveitando-se da irrigação natural
propiciada pelas cheias anuais do rio. Com o projeto de transposição,
será liberada mais água dos açudes no Jaguaribe,
como a barragem do Castanhão, o que vai impedir a produção
dessa horticultura excepcional e o abastecimento local.
-
O São Francisco responde por 95% da energia elétrica
do Nordeste. Com a transposição, a região
vai perder cerca de 1% dessa produção. A saída
para não haver
falta de energia será a composição com energia
termoelétrica, o que implica na
construção de uma usina local. Só que as
usinas dessa categoria entram na cláusula de
energia emergencial, ou seja, todo mundo terá que bancar
os custos desse tapa-buraco.
Quem
vai administrar a distribuição e a cobrança
da água?
O
papel do Governo Federal está restrito à construção
da obra e à definição da Companhia Hidrelétrica
do São Francisco (CHESF) como gestora do projeto. O acerto
final dos critérios e das formas como a água será
distribuída e cobrada dos usuários ficará a
cargo das companhias estaduais de abastecimento, o que envolve muitos
interesses diferentes, e até opostos.
Há
dezenas de projetos inacabados por descaso do Governo Federal.
Antes
de tudo, é preciso concluir as dezenas de obras inacabadas
ou quase destruídas em função da má
gestão. Há cerca de 180 mil hectares de projetos de
irrigação paralisados na bacia do São Francisco,
aguardando recursos, além de vários outros que estão
sendo iniciados.
Jogo
de interesses.
-
70% dos açudes públicos do Nordeste não estão
disponíveis para a população. Ou seja, assim,
como no que se refere à reforma agrária, a influência
político-econômica na distribuição
da água certamente exercerá grande força.
-
As águas da transposição vão passar
por muitas terras, de muitos proprietários, o que, novamente,
envolverá uma luta de interesses. Para começar qualquer
projeto desse nível é necessário fazer também
a regularização fundiária na região.
-
Com tantos argumentos contra a transposição, fica
claro que o projeto só está seguindo adiante como
uma forma de enganar a opinião pública para fortalecer,
em 2006, o presidente Lula em uma possível disputa pela
reeleição ou o ministro da Integração
Nacional, Ciro Gomes, em uma eventual candidatura ao governo do
Ceará. Parece um projeto feito sob encomenda para as empreiteiras,
que tem como objetivo beneficiar a indústria e a agricultura
exportadora da região, e não matar a sede do povo
nordestino e dos animais.
-
O Ibama já está em vias de liberar o início
da transposição, porém, sem levar em
conta a opinião e as necessidades das 34 comunidades indígenas
e das 153 quilombolas que estão na área de abrangência
do projeto.
O
Banco Mundial e outros Estados da região estão contra
o projeto.
-
A pedido do Governo Federal, o Banco Mundial analisou a viabilidade
do projeto e sugeriu o adiamento da transposição,
indicando que os recursos orçamentários deveriam
ser investidos em sistemas de abastecimento locais, como a construção
de mais adutoras e de cisternas para captação de
água das chuvas; na revitalização do São
Francisco e no fortalecimento do projeto Proágua Semi-Árido,
que tem como objetivo garantir a ampliação da oferta
de água de boa qualidade.
-
Os Estados de Sergipe, Alagoas e Bahia são contrários
ao projeto. Este último coloca-se contra com base nos estudos
elaborados pelo Centro de Recursos Ambientais, pela Superintendência
de Recursos Hídricos e pela Secretaria de Meio Ambiente
e Recursos Hídricos, todos da Bahia.
É
preciso revitalizar o rio antes de distribuir suas águas.
-
O São Francisco está muito poluído pelo esgoto
e pelos agrotóxicos despejados incessantemente. Para se
ter uma idéia, dos 504 municípios que fazem parte
da bacia
do São Francisco, apenas 132 possuem obras de abastecimento
de água e só
78 municípios dispõem de serviço de saneamento
básico. Tornar o rio saudável é
prioridade.
-
Outros problemas sérios: o uso inadequado do solo, com
os grandes projetos de agricultura; o desmatamento grave na Bahia
para a obtenção de carvão, provocado pelo
avanço das siderúrgicas do Quadrilátero Ferrífero,
no norte de Minas.
-
Não há mais cheias no baixo São Francisco,
o que prejudica muito a reprodução dos peixes. Além
disso, 18 milhões de toneladas de terra por ano são
despejadas no leito do rio e contribuem ainda mais para o seu
assoreamento. A reconstituição das matas ciliares
é a alternativa mais correta para barrar o assoreamento.
A
perda de água com a transposição.
A
evaporação no semi-árido é três
vezes maior que a precipitação. A cada 4 litros armazenados,
3 evaporam. É por isso que em países como a África
do Sul os reservatórios são tampados e, em Israel,
a água é transportada por meio de tubulações
de alta pressão.
As
transposições que não deram certo.
-
A China e a Índia usaram o método da transposição
quando não tinham nenhuma alternativa. Hoje, ambos enfrentam
problemas de racionalização dos recursos hídricos
e precisam investir no revestimento e na retificação
dos canais para diminuir as perdas com a evaporação
e a infiltração.
-
Na Espanha, o Aqueduto Tejo-Segura não conseguiu atingir
seus objetivos e precisou
de uma demanda maior de água, forçando a construção
de novos projetos de
transposição.
-
No Peru, o projeto Chavimochic, que retira água do Rio
Santa, tem graves problemas de salinização do solo
e de manejo da irrigação. Outra questão foi
a escolha do sistema de amortização da tarifa de
água para sustentar os custos do projeto, que não
gerou recursos suficientes para pagar os investimentos e custos
de manutenção.
-
Nos EUA, a transposição do Rio Colorado para o Rio
Big Thompson gerou conflitos relacionados ao direito sobre as
águas entre os estados de fronteira, além de permitir
a introdução de poluentes e outros contaminantes
nos reservatórios da bacia receptora.
As
alternativas realmente viáveis.
-
As alternativas à transposição que se apresentam
mais econômicas, eficientes e com menores impactos ambientais
são: a revitalização do rio, o uso racional
da água e a construção de cisternas e microbarragens.
- É
necessário, primeiro, recuperar os mananciais, os olhos
d’água e as nascentes; fazer o reflorestamento e
resolver a questão fundiária, principalmente nas
áreas de preservação permanente (a menos
de 30 metros do rio).
-
Israel é um bom exemplo. A uso de tubulações
de alta pressão permite o abastecimento ininterrupto e
uniforme dos lugares distantes. Além disso, tanques de
concreto e depósitos abertos foram incorporados ao projeto
para o constante abastecimento de água. O modelo israelense
evita a salinização, a poluição e
as perdas e ainda uniformiza a distribuição, fazendo
a água chegar até as regiões mais remotas
e
necessitadas.
-
Antes de se pensar em transposição, os investimentos
deveriam ir para a construção de poços, de
adutoras para interligar açudes e de barragens subterrâneas.
Obras menores do ponto de vista geográfico, porém,
maiores do ponto de vista humano.
Parte
das informações aqui encontradas foram extraídas
do jornal O Estado de São Paulo, de 30/9/2005.
Retirado
de: www.umavidapelavida.com.br/umavidapelavida/contra_favor.html
Rivadavio
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