O PT, ele mesmo, como crise
TARSO
GENRO
A
origem da crise que sacode o PT é histórica e estrutural:
ela repousa fundamentalmente no fato de que a história desconstituiu
tanto as experiências socialistas estatistas-dirigistas sem
democracia como constrangeu, em termos conceituais e "programáticos",
o desenho de uma nova utopia democrática. À esquerda
nada foi colocado no lugar. O PT, enquanto instituição,
foi pego nesse vazio de paradigmas e, independentemente das acusações
serem pontuais contra alguns dos nossos dirigentes, o abalo ético
já é visível em todos os nossos poros.
”A
consciência dessas limitações é que nos
vai permitir sair da crise. E, para isso, o PT deve se reformar
profundamente”
O
que move o imaginário das bases de um partido socialista
(comunista ou não) ou social-democrata é a idéia
da igualdade e da justiça. Mas deve ser levado em consideração
que os partidos socialistas que se constituíram a partir
da idéia do comunismo, no poder, superaram todas as resistências
operando pela violência estatal e eliminando a sociedade civil.
Os partidos que adotaram os postulados sociais-democratas foram
favorecidos por uma fase ascensional e expansiva do capitalismo:
na raiz do sucesso da social-democracia também estava o temor
ao comunismo, que foi usado como ameaça para conseguir os
contratos reformistas, com magníficos efeitos de coesão
social, distribuição de renda e seguridade.
Na
crise ideológica dessas duas perspectivas, ambas sem possibilidade
de reprise (a de caráter estatista-dirigista inclusive por
renúncia ideológica do próprio PT), a saída
seria criar um programa mínimo de grande abrangência
social. Um programa concreto de resistência que permitisse
"soldar" a idéia de nação moderna com democracia,
ética pública e busca de igualdade social. A reconstrução
da utopia não poderia significar adaptacionismo sem emoção.
Faltou ao partido, no entanto, emular a sua base política
e social para a discussão de uma agenda necessária
a fim de contribuir com o governo no que se refere às propostas
de transformação da realidade brasileira.
O
Partido dos Trabalhadores não conseguiu configurar completamente
tal projeto. Mesmo o governo do PT e do presidente Lula tendo conseguido
mais avanços do que qualquer outro no período posterior
à Constituição de 1988, em regra a população
já nos vê como "iguais aos outros".
Milita
a nosso favor a coragem de promover fortes programas compensatórios,
como o Bolsa-Família, que distribui renda diretamente, "via
Estado", para os mais pobres -política que é combinada
com uma ação internacional de alto nível e
com iniciativas de combate à corrupção, pela
Polícia Federal, que orgulha todos os cidadãos honestos.
O projeto de refinanciamento estratégico da educação
é outro exemplo entre as ações de envergadura
social do governo do presidente Lula.
Mas
qual foi o "substitutivo" que o partido produziu, nesse período,
para transcender o imaginário jacobino da representação
do "bem absoluto" pela classe operária? Ou para substituir
a ética da coesão democrática, originária
da social-democracia, que estruturou -por meio da esquerda- um novo
contrato social dentro da própria sociedade capitalista?
Nenhum. Esposamos principalmente a tese do partido proprietário
de uma moralidade superior a todos as demais. Substituímos
a política e os mecanismos transparentes de controle interno
por um novo "absoluto" totalmente artificial: "Somos melhores porque
somos mais puros". Esquecemos que qualquer organismo da sociedade
civil, por mais vontades positivas que contenha, reproduz, sempre,
algo da moralidade média da sociedade na qual este organismo
está imerso.
No
plano programático efetivo, avançamos em relação
ao governo precedente. Mesmo assim, e isso é dever de partido,
não conseguimos uma alternativa que despertasse os melhores
sentimentos de solidariedade e humanismo, vetados pelo economicismo
neoliberal. Avançamos, mas ficamos no meio termo: não
entre o progressismo e a social-democracia, mas entre o progressismo
moderado e o neoliberalismo dotado de falsa modernidade. A concertação
ficou paralisada pelo cinturão de ferro do ajuste. O PT aceitou,
alguns de nós convictos da virtude, outros premidos pela
necessidade de solidariedade ao governo, a estabilidade macroeconômica
quase como um fim em si, o que, de certa forma, submeteu nosso programa
ao relativismo do mercado financeiro.
A
consciência dessas limitações é que nos
vai permitir sair da crise. Renovados, sem arrogância e revigorados:
para defender a democracia e continuar a construção
de um novo projeto para o país. E, para isso, o PT deve se
reformar profundamente, apurando, por meio de suas instâncias
internas, nesse caso a Comissão de Ética, quaisquer
responsabilidades: individuais e colegiadas de direção.
Evitar prejulgamentos e verificar se esses companheiros agiam ou
não em nome de uma política do próprio PT é
um dever mínimo de justiça com esses dirigentes e
também de provável autocrítica do próprio
partido. Precisamos, no PT, de uma reforma política, programática
e de métodos de direção para reassumirmos as
responsabilidades com o Brasil e com a democracia.
Tarso
Genro, 58, advogado, é o ministro da Educação.
Foi ministro da Secretaria Especial do Conselho de Desenvolvimento
Econômico e Social da Presidência da República
(2003) e prefeito de Porto Alegre pelo PT (1993-96 e 2001-02). É
autor de "Utopia Possível" (Artes e Ofícios), entre
outros livros.
FOLHA Opinião
São Paulo, sexta-feira, 08 de julho de 2005
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