A nova geração
de bispos do Brasil
Perfil
do episcopado muda com aposentadoria e morte de representantes da
ala que se projetou na história nacional
José
Maria Mayrink
O
perfil do episcopado católico brasileiro está mudando,
em ritmo acelerado, com a aposentadoria e a morte dos bispos da
ala mais avançada da Igreja que se projetaram na política
e na pastoral desde os tempos do regime militar. Os últimos
representantes dessa fase - a maioria deles nomeada pelos papas
João XXIII e Paulo VI - estão saindo de cena sem deixar
sucessores que tenham a mesma visibilidade.
O desaparecimento de figuras como d. Luciano Mendes
de Almeida (Mariana-MG), que morreu em 27 de agosto aos 75 anos,
ainda à espera da designação de um substituto,
deixa um vazio que o Vaticano terá dificuldade em preencher.
O nome que vem sendo indicado para a vaga é o de d. Odilo
Scherer, auxiliar da Arquidiocese de São Paulo e secretário-geral
da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Os cardeais d. Eugenio Sales (Rio), d. Paulo Evaristo
Arns (São Paulo) e d. Aloísio Lorscheider (Aparecida),
que renunciaram ao governo de suas dioceses por limite de idade,
continuam sendo referência obrigatória, mas com discrição.
Como bispos eméritos (aposentados), eles se mantêm
em segundo plano para não fazer sombra aos titulares. Mesmo
em São Paulo, onde o cardeal-arcebispo d. Cláudio
Hummes impôs seu prestígio desde que tomou posse, em
1998.
Historiadores que acompanham a evolução
da Igreja no Brasil, da crise que se seguiu ao Concílio Ecumênico
Vaticano II até a agitação da Teologia da Libertação
e às regras impostas por João Paulo II, interpretam
a falta de novos líderes no horizonte eclesiástico
como resultado das mudanças ditadas por Roma. A debandada
de um terço do clero nos anos 70, quando 4,5 mil dos 12 mil
padres brasileiros abandonaram suas funções, se refletiu
na escolha de bispos nas décadas seguintes.
SEXAGENÁRIOS
"Deixaram o ministério sacerdotal as
melhores cabeças, as melhores vocações, e com
isso Roma ficou sem muita opção", observa o padre
José Oscar Beozzo, teólogo e especialista em história
eclesiástica da América Latina. Conseqüência:
em vez de escolher bispos mais jovens como ocorria anteriormente
- d. Eugenio Sales chegou ao episcopado aos 33 anos - o papa passou
a nomear sexagenários, "homens mais experientes, mas
já sem muito ânimo para enfrentar uma diocese".
Não foi só falta de opção.
João Paulo II investiu em um novo tipo de episcopado, sobrepondo
o aspecto espiritual ao social. Numa época em que freava
os "exageros" da Teologia da Libertação
- só admissível enquanto não usasse instrumentos
marxistas na evangelização - o papa escolhia a dedo
candidatos de indiscutível fidelidade à doutrina e
às orientações de Roma. Dos 198 bispos nomeados
por ele entre 1978 e 2005, a imensa maioria se enquadrava nessa
linha.
João Paulo II - e, por delegação
dele, o prefeito da Congregação para a Doutrina da
Fé, cardeal Joseph Ratzinger, hoje papa Bento XVI - não
admitia contestações em matérias como moral
sexual, celibato dos padres, ordenação de homens casados,
admissão de mulheres ao sacerdócio, aborto, divórcio
e união civil entre homossexuais. Alguns bispos - como o
cardeal Lorscheider, favorável à ordenação
de homens casados - que tentaram discutir esses temas foram censurados
pelo Vaticano.
ALEGRE E MENOS CRÍTICA
"Hoje, fala-se mais à emoção,
sem o mesmo destaque para problemas sociais", observa o padre
jesuíta João Batista Libânio, professor da Faculdade
Teológica dos Jesuítas, em Belo Horizonte. "Continua
a opção pelos pobres (da Teologia da Libertação),
mas é uma opção menos ideológica e mais
assistencialista", acrescenta Libânio, lamentando a morte
de bispos como d. Luciano e d. Hélder Câmara, "homens
preparados e abertos".
A Igreja tornou-se mais alegre, uma comunidade
de louvor e oração, "sem o ranço crítico
do passado". A maioria dos bispos nomeados por João
Paulo II aderiu a essa realidade ou, pelo menos, curvou-se por obediência
às imposições de Roma, mesmo discordando dela.
Quem ousou discordar em público foi convidado a se calar.
No caso do cardeal Arns, que mais de uma vez criticou a Cúria
Romana, embora poupasse a figura do papa, a reação
foi o desmembramento da Arquidiocese de São Paulo, em 1989,
com perda de território e poder.
A nomeação de d. Luciano para Mariana,
quando se esperava sua transferência para Salvador, onde seria
elevado a cardeal, enquadra-se na mesma linha. Seu nome chegou a
ser confirmado para a Bahia, em 1987, mas, na última hora,
o nomeado foi d. Lucas Moreira Neves. Em 1992, d. Luciano questionou
e alterou a orientação imposta pelo Vaticano na 4ª
Conferência do Episcopado Latino-Americano de Santo Domingo,
em 1992, quando era presidente da CNBB.
Em 2004, o Vaticano ofereceu a d. Luciano a Arquidiocese
de Brasília, onde também poderia chegar a cardeal.
Seria uma reparação de supostas injustiças
(ele foi preterido outra vez, quando os bispos da Amazônia
sugeriram sua nomeação para Manaus). O arcebispo agradeceu
e recusou, alegando que não gostaria de interromper seu trabalho
pastoral em Mariana.
ESPERANÇA
Citando como exemplos d. Hélder, de Olinda
e Recife, e d. Antônio Fragoso, de Crateús, ambos falecidos,
e bispos aposentados como d. Cândido Padin (Bauru), d. Benedito
de Ulhôa Vieira (Uberaba) e d. José Maria Pires (Paraíba),
o professor Ênio Brito, do Departamento de Teologia e Ciências
da Religião da Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo, lamenta que a América Latina, e não
apenas o Brasil, esteja perdendo os grandes mestres do passado.
"Vamos ver se Bento XVI escolhe gente mais
nova e mais aberta", é essa a expectativa do professor,
de olho na lista de 26 bispos nomeados nos últimos 15 meses
pelo papa atual. Há pelo menos uma novidade: a maioria dos
escolhidos está nas faixas de 40 e 50 anos de idade. Como
estão ainda começando, nenhum deles teve tempo para
sobressair-se no trabalho.
Entre os novos titulares de dioceses de áreas
de conflito, onde a Igreja atuou em defesa de índios e posseiros,
há algumas surpresas. Padre Beozzo cita dois exemplos de
bispos que continuaram na linha de seus antecessores: d. Eugène
Rixen, que sucedeu d. Tomás Balduíno na diocese de
Goiás (GO) e d. Leonardo Steiner, sucessor de d. Pedro Casaldáliga
na prelazia de São Félix (MT).
O sociólogo Pedro Assis Ribeiro de Oliveira,
ex-assessor da CNBB para as Comunidades Eclesiais de Base (Cebs),
acrescenta a esses nomes outros bispos "de excelente qualidade",
como d. Adriano Ciocca Vasino, de Floresta (PE) e d. Sérgio
Eduardo Castriani, de Tefé (AM). Outra figura unânime
quando se fala em novos líderes é d. Luiz Flávio
Cappio, o bispo de Barra (BA), que, no ano passado, fez greve de
fome, ou jejum, em protesto contra o projeto de transposição
das águas do Rio São Francisco.
Entre bispos que nos anos passados tiveram influência
no episcopado, destacam-se d. Demétrio Valentini (Jales-SP),
d. Geraldo Lyrio (Vitória da Conquista-BA), d. Moacyr Grechi
(Porto Velho-RO) e d. Erwin Kr?utler (Prelazia do Xingu-PA) - este
último ameçado de morte pelo seu envolvimento em conflitos
de terra em defesa de posseiros.
Outros membros do episcopado de projeção
estão a dois anos da idade-limite para a aposentadoria (75
anos), pelas normas do Direito Canônico. É o caso do
presidente da CNBB, cardeal Geraldo Majella Agnelo, arcebispo de
Salvador, e do vice-presidente da entidade, d. Antônio Celso
de Queirós, de Catanduva (SP), de d. Angélico Bernardino,
de Blumenau (SC). D. Cláudio, de 72 anos, tem mais três
pela frente.
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Domingo,
10 setembro de 2006
VIDA&
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