GREVE DE FOME E COERÊNCIA
DE COMPROMISSOS
D.
Demétrio Valentini
A notícia trouxe alívio geral. D. Cappio suspendeu
sua greve de fome, que vinha fazendo desde o dia 26 de setembro,
disposto a morrer se o Governo não revertesse o projeto de
transposição em projeto de revitalização
do Rio S. Francisco e em plano de desenvolvimento de todo o semi-árido
brasileiro.
Alívio, porque a preciosa vida do bispo fica preservada.
Mas alívio também porque ganhou força a causa
da vida do Rio São Francisco.
As duas razões precisam ser assumidas em conjunto. Só
faz sentido a suspensão da greve de fome se ela significar
o compromisso de todos em salvar a vida do Rio São Francisco,
para que suas águas estejam a serviço da vida, a partir
do contexto natural de sua ampla bacia hidrográfica, até
o esgotamento de suas potencialidades, identificadas pela ação
criteriosa e responsável de todos os envolvidos na questão.
A autenticidade do gesto, apelando para a radicalidade da entrega
da própria vida, revelou a força da causa colocada
em questão. Nisto reside a mensagem própria desta
greve de fome. Foi preciso alguém mostrar que sua vida estava
em risco, para todos dar-nos conta que está em jogo a vida
quando lidamos com nossos rios.
Se perdemos de vista esta radicalidade, não percebemos a
gravidade dos compromissos decorrentes da suspensão da greve
de fome. Ela supõe que a causa foi entendida, e que agora
passa a ser assumida, responsavelmente, por todos os que foram interpelados
pelo gesto de D. Cappio.
Em primeiro lugar, o próprio Governo Federal, patrocinador
do projeto que levantou o questionamento radical do bispo. Daí
a importância do Governo demonstrar que a partir de agora
leva em conta o significado desta greve de fome, e age de maneira
coerente com o entendimento produzido no diálogo com D. Cappio,
de tal maneira que daqui por diante toda as providências relativas
ao Rio São Francisco tenham como critério básico
a sua revitalização, para daí se definir, em
conseqüência, a utilização de suas águas,
de acordo com o critério de sua destinação
para a vida, otimizando suas potencialidades, sem colocar em risco
sua própria vida.
Mas não é só o Governo que se sente agora comprometido
com as lições desta greve de fome. E' todo o Brasil
que precisa despertar para esta causa ampla e urgente: precisamos
salvar nossos rios. A greve de fome de D. Cappio nos despertou para
a importância de nossos rios.
Nosso país foi desenhado pelos rios. As águas do Tietê
serviram de primeiro caminho para o avanço dos bandeirantes.
Pelas veias generosas da bacia amazônica foi se tecendo a
geografia continental de nossa pátria. O próprio São
Francisco se tornou o símbolo mais eloqüente da integração
de nosso território. Ele se torna agora o paradigma do cuidado
que precisamos ter com todos os rios do Brasil. Com o percurso mais
extenso em terras brasileiras, as águas do "velho Chico"
cantam o hino da integração nacional, cuja mensagem
somos chamados a interpretar de maneira coerente.
Os rios geraram nosso país. Precisamos agora regenerar suas
águas, poluídas e assoreadas pela maneira equivocada
como foram tratadas. A causa da vida está profundamente ligada
à causa das águas. Esta a clara mensagem desta greve
de fome. Se queremos vida para todos, precisamos garantir vida para
as águas de nossos rios.
Está levantada, com vigor, a bandeira da revitalização
de nossos rios.
Depois dos seus quarenta dias de jejum no deserto, Jesus desencadeou
com o vigor do Espírito sua missão evangelizadora.
Depois da greve de fome emerge a força desta causa, que precisa
ser assumida por todos.
Assim os consensos serão iluminados pelo Espírito
e produzidos pela coerência com a causa da vida.
(www.diocesedejales.org.br)
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