D.
Luiz, o governo e a transposição
Roberto
Malvezzi (Gogó)
Até
nós, muito próximos de D. Luis esses anos todos,
fomos surpreendidos com seu gesto. Ele vinha nos consultando sempre
sobre os desdobramentos do projeto da Transposição.
Sabíamos que queria tomar uma iniciativa mais contundente.
Quando as palavras, os protestos, enfim, a razão já
não é ouvida, só os gestos falam. Tudo foi
muito pensado e amadurecido. Ele é um homem extremamente
responsável.
Sabíamos
que esse impasse viria. Tantas vezes falamos aos homens e mulheres
do governo que a forma como estava sendo conduzido o processo,
iria inevitavelmente gerar indignações e revoltas.
Todas as audiências no Vale do São Francisco terminaram
em tumulto e todas foram validadas pelo IBAMA. A população
do São Francisco foi sistematicamente ignorada. A situação
degradante do rio minimizada. O governo nunca colocou possibilidade
de alternativas ao projeto. Como dissemos, o governo estava dividindo
a nação nordestina, "plantando cizânia".
Semeou vento e agora colhe tempestade.
Para
agravar, agora fala em construir mais duas barragens logo abaixo
de Juazeiro - onde moro - e levanta possibilidade de duas usinas
atômicas em Belém do São Francisco. O pessoal
da Transposição ligado a Chesf, dando-a por certo,
proclamou solenemente a instalação do leilão
de águas. A boca pequena, já se diz que o mercado
da água é mais lucrativo que o mercado de energia.
Para D. Luís, foi a gota d'água.
Agora
estamos no impasse. O governo foi unilateral e achou pela frente
alguém que radicalizou contra si mesmo. O que se pode fazer
contra alguém que decide expor a própria vida por
uma causa? Nada.
O
governo, então, está entre o ruim e o péssimo.
O ruim será recuar, adiar o início das obras e começar
o verdadeiro debate que até hoje não houve sobre
o melhor caminho para o semi-árido e seu povo. O péssimo
é prosseguir, porque D. Luiz não irá recuar.
Qualquer pessoa que tenha um mínimo de conhecimento do
imaginário religioso do povo do semi-árido, sabe
o que significa uma obra nascida sobre a morte de um bispo. Dessa
forma, uma obra que já iria começar sob o signo
da divisão, pode começar também sob o estigma
da maldição.