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(Do
Informativo Ano 6 - 04 de outubro de 2005
REDE de CRISTÃOS)
Maria
Clara Bingemer*
O
governo deu, no último dia 26 de setembro, o penúltimo
passo para tornar real um de seus projetos mais polêmicos.
A Agência Nacional de Águas (ANA) concedeu a outorga
que permite o uso das águas do rio São Francisco para
projeto de transposição. Agora, só falta o
IBAMA conceder a licença de instalação, para
que o governo federal possa dar início à primeira
fase da obra: a construção de canais e das duas primeiras
barragens.
Enquanto
isso, em uma pequena capela próxima do rio e da cidade pernambucana
de Cabrobó, região na qual o governo pretende construir
uma das tomadas de água para a transposição,
um homem deixou de alimentar-se. Numa tentativa derradeira de impedir
a execução do projeto de transposição
do São Francisco, frei Luiz Flávio Cappio, bispo de
Barra, interior da Bahia, iniciou ao meio-dia do dia 26 de setembro
uma greve de fome. Este gesto extremo pretende sensibilizar o governo
federal a rever sua decisão de executar a transposição.
No presente momento, a posição inflexível de
realizar a qualquer custo esta obra, que todas as instâncias
comprometidas com a defesa da terra e da vida qualificam como desastrosa,
impede um verdadeiro debate. E esse debate deveria ser sobre as
ações necessárias para garantir qualidade de
vida e segurança hídrica ao povo do nordeste.
A
transposição é um projeto que pretende levar
as águas do rio por meio de canais e dutos para 12 milhões
de nordestinos que sofrem com a seca no semi-árido. No entanto,
ainda há dúvidas se o rio tem vazão para sustentar
o projeto, orçado em R$ 4,5 bilhões e que divide opiniões
até dentro do governo. O projeto enfrenta resistência
dentro do ministério do Meio Ambiente, responsável
pela liberação da licença. O ministro da Integração,
Ciro Gomes, a senadora Heloísa Helena, o governador de Sergipe,
João Alves Filho, e o deputado federal Marcondes Gadelha
vão debater o projeto na sede do Conselho Federal de Engenharia,
Arquitetura e Agronomia (CONFEA).
O
ministro Ciro Gomes argumenta que a obra não resolverá
o problema da seca, mas dará segurança de abastecimento
para parte da população do semi-árido. O governador
João Alves sustenta que a obra beneficiaria apenas os criadores
de camarão e a agricultura irrigada, prejudicando as populações
ribeirinhas.
Líderes
populares afirmam que em todo o processo a população
do São Francisco foi sistematicamente ignorada e a situação
degradante do rio minimizada. O governo nunca colocou possibilidade
de alternativas ao projeto. A situação agravou-se
mais ainda quando se começou a falar em construir mais duas
barragens logo abaixo de Juazeiro. Levantava-se a possibilidade
de erguer duas usinas atômicas em Belém do São
Francisco. Aproximava-se a instalação de um verdadeiro
leilão de águas. À boca pequena, dizia-se que
o mercado da água é mais lucrativo que o mercado de
energia.
Quando
a razão esgota suas possibilidades, é necessário
que gestos de outra natureza e profundidade entrem em ação.
Quando as palavras, os protestos, os argumentos já não
são ouvidos, só os gestos falam. As pessoas mais próximas
a Dom Luís declaram ser ele um homem extremamente responsável.
Tudo em sua decisão foi muito pensado e amadurecido, ponderado
na reflexão, na oração e na partilha fraterna
com o povo a quem serve e ama.
Em
lúcida e comovente declaração que acompanha
carta por ele escrita ao Presidente Lula, o pastor expõe
sua decisão e motivações. Declara que permanecerá
em greve de fome até a morte, sem suspendê-la, a não
ser que ocorra a reversão da decisão sobre a transposição.
Diz ainda que caso venha a falecer, gostaria que seus restos mortais
descansassem junto ao Bom Jesus dos Navegantes, meu eterno irmão
e amigo, a quem, com muito amor, doei toda minha vida, em Barra,
minha querida diocese.
Na
aurora do Cristianismo, Paulo de Tarso falava da loucura da cruz
que é sabedoria de Deus. É essa loucura que Dom Luís
deseja que fale através do oferecimento de sua vida em favor
da vida. E para ele, claramente, a vida passa pela necessidade urgente
de revitalização do Velho Chico e de ações
que garantam o verdadeiro desenvolvimento para as populações
pobres do Nordeste: uma política de convivência com
o semi-árido para todos, próximos e distantes do rio.
D.
Luís não recuará. Irá até o fim
na decisão que Deus o inspirou. E qualquer pessoa que conheça
o imaginário religioso da população que vive
no semi-árido sabe o que representa uma obra nascida e construída
sobre a morte de um bispo. Se já teria início sob
o signo da divisão, poderá ter agora o estigma da
maldição.
*Teóloga,
professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas
da PUC-Rio. Autora de "A Argila e o espírito - ensaios
sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond),
entre outros livros. (wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape)
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