ANPB
Associação Nacional de Presbíteros do Brasil

Comissão Profética

Esperança no crisol

A hora mais escura é quando vai amanhecer".
(Provérbio sefardita)

Diante do tsunami de corrupção alardeada no Brasil, muitos cantam: “Se gritar pega ladrão não fica um, meu irmão”. Fica sim! Tem muita gente honesta, trabalhadora, com sensibilidade ética, que se comove com a dor dos pobres, se indigna contra toda e qualquer injustiça e, de forma organizada, participa de lutas libertárias. Outros lamentam: “Que decepção! A esperança construída com tanto suor e sangue está indo para o ralo.”

Nem todo mundo é corrupto e não está indo tudo para o ralo. A esperança está sendo filtrada, purificada e passada no crisol. É chegada a hora de percebermos que a esperança genuína vem das planícies e não mais do planalto, vem dos porões da humanidade onde os pobres gemem e, de forma organizada, clamam por direitos e empreendem marchas libertárias, como a 2a Marcha da Reforma agrária, de Goiânia a Brasília, de 1 a 17 de maio último, com mais de 12 mil sem-terra.

É hora de discernimento. Não dá para acreditar ingenuamente em tudo o que a mídia trombeteia, pois a mídia brasileira é um latifúndio controlado por poucas famílias que deixa milhões de sem-comunicação sob efeito de calmante. Entretenimento, em circos televisivos, é a regra da programação da TV do Brasil, salvo exceções. Há jornalistas sérios, mas há também grandes interesses dos donos dos meios de Comunicação.

Existe muita corrupção, mas há também uma verdadeira e séria luta para descobrir quem é corrupto ou corruptor e responsabilizá-los. É preciso perceber que, neste momento, estão atuando também fariseus interessados em desmoralizar o governo de Lula. Há interesses do imperialismo estadunidense em fragilizar o processo de soerguimento da América Afrolatíndia. Os povos da Venezuela e da Bolívia estão se levantando e lutando por soberania. Interessa ao império do tio Sam encabrestar novamente o Brasil nas próximas eleições presidenciais. E para isso, no Brasil, o governo norte-americano conta com uma elite vassala dos seus interesses imperiais. É muito provável que se comprove que, no exercício do poder, líderes do PT se corromperam. Tudo precisa ser apurado com o máximo de rigor. A crise política do Brasil é complexa, exige discernimento.

A corrupção é uma chaga grave existente no Brasil, mas não é o problema do Brasil. Ela faz parte da engrenagem capitalista. Lutar contra a corrupção implica lutar contra os pseudo-valores do sistema capitalista: a concorrência, a competição, o acumular, lucrar e lucrar cada vez mais, passar a perna nos enfraquecidos e, enfim, seguir a Lei de Gerson. Onde reina o capitalismo, sempre haverá alguma corrupção.

A reação dos segmentos organizados da sociedade está sendo muito positiva e constitui uma chance de provocar uma mudança de rumo. Esta reação se articulou de uma postura unitária de uma boa representação da sociedade civil e dos movimentos sociais “contra a corrupção e a desestabilização política do governo. Por mudanças na política econômica, pela prioridade dos direitos sociais e por reformas políticas democráticas”. É extremamente significativa esta formulação, porque vincula, o que não faz de modo geral a mídia, a luta contra a corrupção com a luta por uma outra política econômica e pela reforma política democrática. Portanto, sinaliza uma mudança de rumos que pode fazer o governo retornar ao ideário em função do qual foi eleito.

Não precisamos apenas de ética, mas acima de tudo de pessoas éticas, pessoas sensíveis que sentem o sofrimento dos outros. Eis um imperativo necessário para passar o Brasil a limpo: Quem souber de alguma corrupção deve denunciar. Não pode se omitir! Deixar de denunciar a corrupção é um desserviço aos pobres. As práticas dos corruptos e corruptores devem ser trazidas à luz do dia. É hora de seguirmos o exemplo de Eriberto, o motorista de Collor que teve a coragem de denunciar a malandragem do presidente collorido. Assim puxou o tapete que escondia a sujeita da era da caça aos marajás. Eriberto e o povo, exercendo sua cidadania, cortaram o tendão de Aquiles de um Golias que imponentemente foi vendido ao povo como um salvador da pátria.

Não precisamos de apenas ética na política partidária, mas de pessoas éticas na sociedade. Temos que continuar organizando o povo a partir de lutas concretas. É por aí que cultivamos uma esperança orgânica. É ilusão acreditar em salvadores da pátria. Só transformaremos o Brasil de baixo pra cima e de dentro pra fora.

É hora de ouvir o grupo Capital Inicial, e antes Caetano Veloso, cantarem em Podres Poderes, de autoria desconhecida “enquanto os homens exercem seus podres poderes, motos e fuscas avançam os sinais vermelhos e perdem os verdes somos uns boçais (...) Será que nunca faremos senão confirmar a incompetência da América católica que sempre precisará de ridículos tiranos?” Não basta pegar pela orelha os corruptos e corruptores do mundo da política e do empresariado, em uma atitude farisaica. É preciso também fazer autocrítica a partir do questionamento de Jesus: “Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra.” (João 8,7).

O governo de Minas Gerais, por exemplo, acolitando a elite do agronegócio, se vangloria ao anunciar que Minas exportou 10 bilhões de reais em 2004 (14% da exportação nacional). Foram 2 bilhões em minério, 1,2 bilhão em café e na centésima posição 34 milhões em produtos eletro-eletrônicos. Devíamos nos envergonhar disso! A política do “exportar é o que importa” diz, nas entrelinhas assim: “Somos colônia. Estamos colocando nos grandes cargueiros transatlânticos os nossos recursos naturais. Exportamos muita água ao exportar cereais. Estamos muito felizes com isso. Queremos continuar sendo colônia. Queremos continuar de joelhos diante dos impérios do mundo.” Em nome do progresso e de um falacioso desenvolvimento sustentável, a elite do Brasil impõe um projeto bárbaro para a sociedade que é, na prática, futuricídio.

Para enfrentar a aridez e o cinismo no deserto do real, devemos descobrir razões mais profundas para se amar a verdade e defender o bem-comum. Para isto faz bem levar sempre no coração e na memória Diógenes, o cínico que, com uma lanterna acesa ao meio dia, procurava um Homem. É bom inspirar-se em Jesus Cristo que teve a grandeza de consolar os aflitos e incomodar os acomodados. Devemos honrar Gandhi que lutou contra o imperialismo com coerência fazendo boicote dos produtos do império, construindo uma resistência com métodos de paz. Gandhi animava os pobres dizendo: “Quando me desespero lembro-me de que em toda a história a verdade e o amor sempre venceram. Houve tiranos e assassinos e, por um tempo, eles pareciam invencíveis mas, no final, sempre caíam. Pense nisto. Sempre.”

É hora de militar no time de Chico Mendes que, por amor aos pobres e à floresta, aliou as lutas sociais à defesa da floresta, se transformando no pai da florestania.

É hora de ser ético no varejo, como o menor de rua que, no final de um casamento chique, entregou ao padre, dentro da igreja, a chave de um Honda Civic dizendo: “O carro está lá na rua com as portas destrancadas e a chave estava caída ao lado do carro. Tranquei o carrão e a trouxe a chave. Veja aí quem é o dono.”

É hora de colaborar com a Polícia Federal que em 77 operações de combate à corrupção, prendeu 1.360 pessoas entre políticos, juízes, empresários, policiais federais e servidores públicos.

É hora de abrir os olhos para ver os clamores que vem dos porões da sociedade, abrir o coração para ter compaixão cristã e abrir as mãos para partilhar e organizar. “Já não temos onde plantar e colher; nosso sítio foi inundado. Até o cemitério onde estão enterrados nossos avós foi encoberto pelo lago da usina”, desabafa um dos atingidos pela barragem de Candonga em Minas Gerais. “A gente não tem para onde fugir. Viemos parar aqui neste barranco, porque não encontramos onde morar”, diz soluçando um sobrevivente de desmoronamento, com lágrimas nos olhos. “A nossa vila está morrendo, pois aqui dá-se um tiro em um e acerta dez, pois instaura o medo. Sob o império dos traficantes, ninguém vê, nem ouve nada. Se falar, morre logo em seguida”, denuncia Raquel, uma favelada.

É hora de apoiar o projeto de convivência com o semi-árido que está construindo um milhão de cisternas. Uma mulher do semi-árido, com os olhos brilhando de alegria, disse: “A melhor coisa que aconteceu em 50 anos foi construir uma cisterna para segurar a água da chuva”.

É hora de seguir o exemplo de luta dos povos indígenas, tais como os Tupiniquim e Guarani do Espírito Santo que não se ajoelharam diante do poderio da Aracruz Celulose. Considerando-se espoliados por um acordo forçado com os antigos caciques, em 1998, as jovens lideranças indígenas decidiram resgatar sua cultura e sua dignidade, fazendo a auto-demarcação de suas terras e reorganizando uma aldeia que havia sido destruída para a plantação de uma monocultura de eucaliptos.

É hora de continuar denunciando os políticos corruptos, corruptores, clientelistas e fisiológicos, pois pela Lei 9840 – lei que proíbe o abuso econômico nas campanhas eleitorais - já foram cassados 164 prefeitos, vereadores e deputados, condenados por abuso de poder econômico ou por clientelismo.

É hora de seguir o rumo indicado pelo povo boliviano que se levantou mais uma vez para defender a soberana do país, como o fez também outras vezes, inclusive para impedir a privatização da água. No final de maio, depois de três semanas, a paralisação do país era quase total. A mobilização popular reclamava: "nem 30%, nem 50%: nacionalização!". Luta bonita pela soberania sobre os recursos naturais, exemplo que deve ser seguido pelo povo brasileiro.

É hora de seguirmos um taxista de Araxá que disse: "Doutor, a primeira vez que calcei um sapato foi aos dezesseis anos. Quando garoto, na roça, eu ouvia a campainha de uma bicicleta e ficava imaginando se um dia teria uma. Pois saí da roça e fui cuidar da vida, com uma mão na frente e outra atrás. Trabalhei muito, honestamente. Hoje tenho três carros e este celular. Cada vez que o celular toca, eu choro. Ao lembrar de onde vim e até onde cheguei".

É hora de dizermos com Rubem Alves: “A política, como vocação, é a mais nobre das atividades do ser humano; como profissão, a mais vil.” Não podemos jogar todos os políticos na lata de lixo. Há políticos com vocação para lutar pelo bem comum. Esses merecem respeito.

É hora de perceber que da elite não vem salvação, só exploração, pois o historiador José Honório Rodrigues alerta: "A elite brasileira nunca se reconciliou com o povo, negou seus direitos, arrasou sua vida e, logo que o viu crescer, negou-lhe pouco a pouco sua aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que continua achando que lhe pertence."

É hora de ouvirmos o conselho de Martin Luther King: "É melhor tentar e falhar do que preocupar-se e ver a vida passar. É melhor tentar, ainda que em vão, do que sentar-se sem fazer nada. Eu prefiro caminhar na chuva do que, nos dias tristes, me esconder em casa. Prefiro ser feliz, embora louco do que viver na conformidade. Acredito que um dia homens e mulheres vão descobrir que foram criados para a convivência fraterna e seguirão líderes que vivem esta realidade. Temos de aprender a viver juntos como irmãos ou perecemos juntos como loucos. Se soubesse que o mundo se desintegraria amanhã, ainda assim plantaria a minha macieira. O que me assusta não é a violência de poucos, mas a omissão de muitos. Temos aprendido a voar como os pássaros, a nadar como os peixes, mas não aprendemos a sensível arte de viver como irmãos".

O filósofo Platão, em meio à crise da cultura grega, alertava: "as coisas grandes só acontecem no turbilhão da krisis".

Frei Gilvander Moreira
gilvander@veloxmail.com.br

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