ANPB
Associação Nacional de Presbíteros do Brasil

Comissão Profética

Doar a vida: Um caso da consciência cristã

O homem de Deus de Cabrobó

Acabo de voltar de Cabrobó (PE), pequena cidade próxima ao Rio São Francisco, em pleno Sertão. Fui visitar Dom Luís Flávio Cappio, Bispo católico de Barra (BA), há nove dias em greve de fome a favor da revitalização e contra a transposição do Rio São Francisco.

De Petrolina a Cabrobó são 200 quilômetros. O rio, bem próximo da rodovia, aparece e desaparece, quebrando com a sua cor azul a tristeza da paisagem do Sertão. Casebres de barro sem fim abrigam os sobreviventes das duras exigências da seca, submetidos à sede e a escassa alimentação. Perguntas atrozes martelavam no meu cérebro: “Para quem serve este rio tão próximo?” “Para quem vai ser útil a sua transposição?”.

Em Cabrobó, encontrei um homem de Deus, com a sua veste de franciscano, retirado em uma capela, situada quase no topo de um pequeno morro que esconde à vista o Rio São Francisco. Ele se alimenta tão somente da água do rio, guardada em um pote colocado num canto, perto do altar. É um homem sereno, feliz, que vive seus últimos dias consolando os pobres que o procuram. Chegam de perto e de longe, do sertão e das cidades, sozinhos ou com a família ou em grupos, a pé ou amontoados em caminhões. Levam para o Bispo potes com água do rio. Recebem conforto, uma bênção, a promessa de orações e um sorriso de esperança que surge luminoso do dom da sua vida.

O homem de Deus de Cabrobó esconde com habilidade os seus problemas: diz a todos que está bem, mas o seu estômago já rejeita a água querida do rio. Consome rapidamente suas reservas físicas atendendo, uma após outra, centenas de pessoas a cada dia. Celebra diariamente a Eucaristia e descansa de noite, deitado sobre um colchonete.

As encruzilhadas da vida

Dom Luís se colocou em uma encruzilhada. Apostou-se como um guerreiro no lugar da tomada de água que do rio deveria ser levada em direção ao Ceará. Tornou-se um sinal de contradição e um desafio para Governo brasileiro e para as Igrejas cristãs. Transposição, sim - diz o Governo. Revitalização, é o caminho - diz dom Luís. O problema e a reserva hídrica do nordeste - diz o Governo. O problema é distribuir a água para o povo - afirma dom Luís e com ele um número grande de cientistas, ambientalistas, organizações não governamentais e o povo sofrido do Sertão. Milhões de pessoas precisam de água no Ceará, na Paraíba, no Rio Grande do Norte e no Pernambuco - diz o Governo. Milhões de pessoas precisam de água a pouca distância do Rio São Francisco e não a conseguem. “Ter água passando próxima não é a solução, se não houver a justa distribuição da água disponível” - responde dom Luís. Se todos fizerem como dom Luís, uma greve de fome para cada projeto do governo, este ficaria impossibilitado de governar. Que o governo fique tranqüilo, não há muitos dom Luís para isso.

No conflito das posições, o homem de Deus se aproxima rapidamente da entrega de sua preciosíssima vida.

Dom Luís se colocou na encruzilhada e tornou-se um desafio e um sinal de contradição também para as Igrejas cristãs, especialmente para a Igreja Católica, na qual ele é bispo. Nos ambientes eclesiásticos passa-se da solidariedade a julgamentos severos, a hipóteses absurdas e comentários tão fúteis quanto ofensivos.

Estaria dom Luís querendo mostrar-se e buscar ser famoso? Mas ele escreveu já o testamento, despediu-se de seus familiares e de sua diocese e só vive com os pobres diante de Deus, aguardando ser sepultado na capela do Bom Jesus dos Navegantes a quem devotou toda a sua vida.

Há quem fique perplexo diante do gesto extremo de dom Luís. Há quem julgue que o gesto dele é um suicídio e nem merece que se ore por ele. Mas dom Luís já deixou claro que não quer morrer, mas lutar até a morte. Não quer fazer uma luta contra o Governo, mas quer que o Rio São Francisco se torne uma fonte de vida para o povo do sertão nordestino.

No conflito das interpretações, o homem de Deus se aproxima rapidamente da entrega de sua preciosíssima vida.

Dar a vida pelos amigos

No conflito das interpretações, é bom lembrar que dar a vida “voluntariamente” é um fato na história dos cristãos. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos” (Jo 15,13). Este lóghia do Evangelho segundo João, além de referir-se à entrega da vida de Jesus, perpassa toda a história da espiritualidade cristã até a nossa época, justificando martírio, penitências incríveis, opções de vida junto aos portadores de lepra e de outras doenças infecciosas, quando não havia cura..

Quando soube da morte do Lázaro seu amigo, Jesus falou aos discípulos: “Vamos, de novo, à Judéia”. Os discípulos disseram-lhe: “Rabi, ainda há pouco os judeus queriam apedrejar-te, e agora vais outra vez para lá?”. O diálogo continua e Jesus decide: “Nosso amigo Lazaro está dormindo. Mas, eu vou acordá-lo”. Enfim, o diálogo termina com a exclamação de Tomé “Vamos nós também, para morrermos com ele” (Jo 11, 6-16).

Na Igreja Católica costuma-se fazer uma leitura muito fundamentalista de Mt 16, 13-20 e pouca atenção se presta aos versículos seguintes. “Jesus começou a mostrar aos discípulos que era necessário ele ir a Jerusalém, sofrer muito da parte dos anciãos, sumos sacerdotes e escribas, ser morto e, no terceiro dia, ressuscitar. Então, Pedro o chamou de lado e começou a censurá-lo: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isso não te aconteça!” Jesus, porém, voltou-se para Pedro e disse: “Vai para trás de mim, Satanás! Tu estás sendo para mim uma pedra de tropeço, pois não tens em mente as coisas de Deus, e sim, as dos homens!” (Mt 16, 21-23).

Caberiam aqui muitas perguntas, mas prefiro terminar esta breve reflexão da mesma maneira com que os evangelhos costumam terminar um discurso de Jesus ou uma parábola: “Quem tem ouvidos, ouça”.

Não podemos julgar o ato extremo de dom Luís Flávio Cappio substituindo-nos à consciência cristã dele, mas somente aceitar a doação da sua vida como um testemunho cristão. Não temos nada a comentar a não ser confessar: “Eu não sou capaz de fazer o que ele está fazendo”. “Não queremos que ele morra!” Estamos ao lado dele na luta em favor da qualidade de vida das populações do semi-árido de que a revitalização do Rio São Francisco tornou-se a bandeira que dom Luís Flávio Cappio levanta, entregando sua vida na capela de São Sebastião, em Cabrobó.

Pe. Gabriele Cipriani

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