Jesus
crucificado no SUS do Brasil de fato
Aline
Dias e Frei Gilvander
Enquanto
assessorava o 2º Fórum de Ação Social
e Política da diocese de Itajubá, fiquei comovido
e indignado ao ouvir Aline me contar o seguinte: “Era sábado
do dia 14 de julho de 2006, em Itajubá/MG. Enquanto almoçava,
inesperadamente, uma espinha de peixe agarrou na minha garganta.
Dor, sangramento e incômodo passaram a dominar-me. Eu tenho
plano de saúde simples, mas como o tal não tem filial
na cidade, eu deveria pagar para depois ser reembolsada. Fui ao
Pronto Socorro do SUS – Sistema Único de Saúde
-, em Itajubá, na Santa Casa de Misericórdia. À
minha frente para preencher a ficha estavam três pessoas.
Um senhor idoso aparentando mais de 80 anos, negro, alto, muito
magro e com vários curativos nos pés. Cambaleava
e seu corpo tremia continuamente. Uma senhora que estava sentada
no banco ao lado, ofereceu-lhe lugar enquanto esperava.
A segunda pessoa da fila de espera era um pai que acompanhava
o filho doente. Um garoto de, mais ou menos, 9 anos de idade e
que, segundo o pai, não parava de vomitar a dois dias.
A criança pareceu-me desidratada e anêmica. Ouvi
o pai perguntar se havia pediatra atendendo naquele dia e a atendente
dizer-lhe que não e o atendimento seria feito pelo médico
plantonista, um clínico geral.
Antes que o atendimento chegasse à terceira pessoa, um
rapaz entrou no Pronto-socorro pedindo licença e explicou
que havia uma emergência: uma senhora idosa, vizinha dele,
estava no seu carro e tinha sintomas de infarto. A atendente pediu
os documentos da mulher e o rapaz não teve como apresentá-los
alegando não ser parente da senhora e estar prestando um
favor. A atendente pediu que o rapaz aguardasse.
Quando
a terceira pessoa da fila, uma senhora com uma adolescente, estava
fazendo a ficha de atendimento, ouvimos uma sirene e o carro da
polícia veio trazendo pelo braço um rapaz de, mais
ou menos, 20 anos todo sujo e machucado. O policial explicou que
o rapaz era vítima de um assalto e que por ter reagido
foi agredido violentamente. Havia várias escoriações
pelo corpo, a roupa dele estava rasgada e sua testa sangrava.
A
essa altura, todas as pessoas da sala de entrada pequena e apertada
silenciaram-se e observavam o rapaz trazido pelo policial. A atendente
fez-lhe a ficha e após alguns minutos foi chamado para
entrar.
De
volta ao atendimento da senhora e da adolescente, a atendente
explicou-lhes que, provavelmente, demoraria bastante, porque naquela
tarde havia ocorrido vários atendimentos de emergência.
O
rapaz que acompanhava a senhora (o da carona), entrou novamente
na sala e, irritado, se dirigiu à atendente e perguntou
se iriam esperar que a senhora morresse para depois atendê-la.
No auge do seu desabafo, apontou para um cartaz pendurado que
dizia: “Este pronto-socorro tem atendimento prioritário
a idosos, conforme Estatuto do Idoso, lei tal...” e completou:
“ - Estatuto do idoso pra quê? Pra gente assistir
os idosos morrendo na fila de espera sem atendimento?”
Quando
chegou a minha vez de fazer a ficha para o atendimento já
haviam se passado uns 40 minutos. Entreguei os documentos e não
me perguntaram nada. Nem o que eu tinha, nem se sentia alguma
dor, apenas disseram-me para aguardar.
Ao
lado desta sala principal havia uma outra, onde encontrei uma
cadeira vazia. Sentei e comecei a pensar que era a primeira vez
na minha vida que eu necessitava de um hospital público.
Silenciosamente, agradeci a Deus por isso e interiormente rezei
por aquelas pessoas que estavam ali. Fiquei pensando em tantas
coisas... Jesus curando os doentes, os paralíticos, o samaritano
socorrendo um assaltado e agredido. Em como é aplicado
o dinheiro público; nos desvios e corrupções
que são manchetes cotidianamente. Em como podia ser diferente
se o povo se organizasse para luta pelos seus direitos; se os
políticos tivessem realmente “saúde e educação”
como prioridades de governo. Na diferença entre o atendimento
de hospitais públicos e privados. Mil questionamentos,
considerações e tristes constatações
em alguns minutos.
O
senhor, pai do garoto desidratado, estava sentado com o filho
no colo bem na minha frente. E por incrível que pareça
eu não puxei conversa como sempre faço. Ao olhar
para a criança lembrava-me do Estatuto da criança
e adolescente – ECA - que diz que toda criança tem
direito à saúde. Quantas leis descumpridas, quantas
agressões aos direitos humanos!
Minha
garganta continuava doendo, a espinha incomodava mesmo quando
eu engolia a saliva. Como o profeta Elias após lutar tanta
contra a idolatria de Baal, eu permanecia inerte, como se minhas
forças e meu ânimo de lutar tivessem acabado. A dor
e o sofrimento das pessoas me contagiaram profundamente e sentia
uma enorme vontade de chorar.
Uma
senhora entrou na sala principal trazendo um rapaz de, mais ou
menos, 16 anos que sofria de epilepsia e estava tendo uma crise.
Seus olhos estavam revirados, a saliva escorria pelos cantos de
sua boca e ele tremia muito. A mãe suplicou à atendente
que, por favor, pedisse aos médicos para atender ao seu
filho. O motorista do táxi que trouxe a senhora e o adolescente
interveio em seu favor alegando que as crises do rapaz costumam
ter sérias complicações, e que quando a mãe
chama o táxi é porque a situação realmente
está muito grave.
A
agonia daquela mãe aflita, com o filho no colo, me fez
lembrar Maria de Nazaré, mãe de Jesus. Seu rosto
sofrido não tinha lágrimas, mas, com certeza, seu
coração estava sofrendo calado ao ver o calvário
do filho.
Naquele
momento me sentia tão mal que decidi não esperar
mais ali. A minha dor diante de tantas, pareceu-me infinitamente
pequena e suportável. Uma espinha de peixe e seu incômodo
eram nada diante de tantos e tão diversos sofrimentos.
Voltei para casa. No dia seguinte, como que por milagre de São
Braz, protetor da garganta, o espinho até que enfim desapareceu
da minha garganta.
Saí
do Pronto-socorro do SUS, mas o Pronto-socorro não saiu
de mim. Os clamores e as angústias de milhões de
pessoas que são condenadas a permanecer na fila do SUS,
em uma via-sacra interminável me acompanham, incomodando-me
e me perguntando sempre: Onde você está? O que você
está fazendo no mundo?”
Já
precisei do SUS várias vezes e também levei muita
gente para ser atendida no SUS. Muita gente me diz: “Pronto-socorro
público é sempre desse jeito.” Temos que reforçar
a luta para que o direito constitucional do povo brasileiro à
saúde seja realmente respeitado. Isso passa por política
econômica soberana e não a reboque os banqueiros,
por Reforma Agrária, por preservação ambiental,
por proibição aos transgênicos, por apoio
à agricultura familiar, freio no agronegócio, fim
das monoculturas, revolução educacional, medicina
preventiva, ética na política e ...
Aline
Dias de Araújo - aline.ptu@oi.com.br
Frei Gilvander Moreira – gilvander@igrejadocarmo.com.br